Em foco pela vitória do Benfica frente ao Spartak e pela polémica reserva de Óscar Cardozo até ao intervalo da partida, Jorge Jesus foi jogador antes de ser treinador. Não foi um craque de primeira escolha mas era figura assídua nas coleções de cromos dos anos 70 e 80, a cujos organizadores apresentava a dificuldade de mudar de equipa quase todos os anos: conheceu sete camisolas em nove épocas entre os melhores, o que impedia a utilização de fotos antigas a cada nova coleção. Pontos em comum com a actualidade – era um médio técnico e cerebral, que já gostava de ler os aspetos táticos do jogo, e já apresentava a cabeleira farta que hoje ostenta no banco do Benfica, como pode ver-se pela foto aqui exibida, do seu ano de estreia na I Divisão, ao serviço do Olhanense.
Jorge Fernando Pinheiro de Jesus nasceu a 24 de Julho de 1954, na Amadora. Era filho de Virgolino de Jesus, futebolista que chegou a jogar na equipa do Sporting durante a década anterior, pelo que desde cedo se interessou pelo jogo. Começou no Estrela da Amadora, mas nos juvenis já alinhava de verde-e-branco, no Sporting, que era o clube da família. Terminada a formação, porém, não teve lugar no plantel que haveria de se sagrar campeão nacional, em 1974, tendo sido emprestado ao Peniche, da II Divisão. Um ano volvido, o Sporting voltou a emprestá-lo, mas desta vez ao Olhanense, já na divisão principal. Ali começou a trabalhar com Manuel de Oliveira, o treinador que o marcou enquanto futebolista. E que melhor estreia na I Divisão poderia ter que a receção ao Sporting, campeão nacional e detentor do passe do jovem médio? A 8 de Setembro de 1974, os leões, liderados por Alfredo Di Stefano e a viver uma confusão monumental na sequência do 25 de Abril, deslocaram-se ao Algarve, onde foram batidos pelo Olhanense por 1-0, golo marcado pelo argentino Lo Bello. Jesus jogou os 90’ e começou a ser levado a sério pelos responsáveis leoninos.
Nessa primeira época, o jovem Jesus falhou apenas uma das 30 jornadas do campeonato – a última – tendo marcado cinco golos (o primeiro ao Belenenses, logo na segunda jornada). Era o suficiente para que Juca, nomeado treinador dos leões em 1975, o chamasse de regresso à base. Só que, apesar de aquela ter sido a época em que, até hoje, o Sporting obteve a sua pior classificação final (quinto lugar, falhando as provas da UEFA), Jesus nunca se impôs como titular. Só começou uma partida de início (à segunda jornada, em casa com o Beira Mar), ainda fez um golo (nos 4-1 à Académica, em Coimbra) mas acabou por ser dispensado. Ao quarto ano de sénior, seguia-se a quarta equipa: ia para o Belenenses de Carlos Silva. Mas também ali, devido a uma lesão logo à segunda jornada, frente ao Estoril, foi infeliz, não justificando a continuidade. Rumou, dessa forma, ao Riopele, equipa de uma fábrica têxtil que acabara de subir e que chegou a fazer manchetes de jornais por andar colado aos primeiros nas jornadas de abertura. Jesus terminou a época com três golos (cinco, se contarmos os dois na Taça de Portugal, onde ajudou a eliminar, no Bessa, o Boavista, marcando já no prolongamento), mas o Riopele desceu e nenhuma equipa da I Divisão pegou no médio amadorense.
A carreira prosseguiu, desta forma, no Juventude de Évora – a sexta equipa, em seis épocas de sénior. E o protagonismo que ali assumiu valeu-lhe um lugar no plantel da U. Leiria, que nessa época subiu de escalão. Jesus foi um dos mais regulares na equipa de Fernando Peres, mas nem assim evitou nova descida de divisão, a terceira da sua carreira. Desta vez, porém, acabou por ficar entre os melhores, pois assinou pelo V. Setúbal. Fez a pior época da sua carreira – uma lesão grave em Viseu e um regresso apressado levaram a que alinhasse em apenas seis jogos em todo o ano – mas pela primeira vez na carreira permaneceu numa equipa após o defeso. Na segunda época no Bonfim, Peres Bandeira passou a apostar mais nele e Jesus estreou-se a marcar a um grande: foi a 2 de Maio de 1982 que, no Bonfim, fez um golo no empate a duas bolas contra o Benfica, dessa forma deixando o Sporting a uma vitória de ser campeão. A boa notícia para Jesus, porém, não se resumia a isso: a nova época do Vitória ia ter aos comandos Manuel de Oliveira, o treinador que o lançara. Jesus ficou no clube, mas acabou por fazer um campeonato mediano e, finalizada a época (e o contrato), apesar da permanência do seu mestre em Setúbal, acabou por mudar de ares, rumando ao Farense, onde Fernando Barata procurava atrair jogadores com experiência de I Divisão. E o amadorense foi um dos mais regulares na equipa de Mladenov (e depois do estreante Manuel Cajuda), ajudando os algarvios a festejar a manutenção.
Para ele, porém, era o fim do futebol de alto nível enquanto praticante. Ainda alinhou pelo Estrela da Amadora, pelo Benfica de Castelo Branco e pelo Almancilense, clube que abandonou em nome daquela que era de facto a sua vocação: treinar. E também aqui foi impulsivo. Numa semana estava a jogar pelos algarvios, na seguinte estava a dirigir o Amora, clube que marcou o arranque desta sua nova vida.
JESUS NA I DIVISÃO
1974/75 Olhanense 29/5
1975/76 Sporting 12/1
1976/77 Belenenses 13/0
1977/78 Riopele 28/3
1979/80 U. Leiria 22/1
1980/81 V. Setúbal 6/0
1981/82 V. Setúbal 18/2
1982/83 V. Setúbal 16/1
1983/84 Farense 23/0
TOTAL: 167 jogos e 13 golos
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