

Foi um dos avançados mais regulares na arte de marcar golos nos anos 70 e 80, somou quinze épocas consecutivas na I Divisão, mas acabou por entrar na história do futebol português por causa de um episódio caricato que o impediu de ser internacional. Corria o ano de 1980 e a seleção portuguesa entrava cheia de esperança na fase de qualificação para o Mundial’82, que se disputaria em Espanha. A qualificação começara com um empate milagroso na Escócia (0-0, na melhor noite da carreira de Bento) e uma vitória por 1-0 frente à Irlanda do Norte. Seguia-se a receção a Israel, no Estádio da Luz, e entre os convocados estava Júlio, avançado já experiente do Boavista. A meio da segunda parte, Juca deu ordem a Júlio para aquecer e este levantou-se com vontade. Começou a correr, mas quando se virou para o fazer no sentido inverso, chocou com os óculos do preparador físico José Falcão, que se levantara e desatara a correr atrás dele. Partiu a cana do nariz e, apesar de ter sido possível estancar a hemorragia, o escolhido para jogar os últimos minutos no lugar de Carlos Manuel foi Manuel Fernandes. Júlio, que viveu a sua melhor época de sempre, com 13 golos no campeonato, não voltou sequer a ser convocado. Guardou a mágoa para a vida.
A carreira de Júlio Carlos da Costa Augusto já ia longa, porém. Nascera a 26 de Março de 1953, no Porto, e foi no FC Porto que fez a formação e que se estreou como sénior. António Feliciano, o quarto treinador da época portista, procurava soluções para uma equipa que não se endireitava e, numa deslocação ao Barreiro, para defrontar a CUF, a 7 de Maio de 1972, deu-lhe os minutos finais de um jogo que persistia no 0-0. Foi já com Júlio em campo que, aos 89’, Manuel Fernandes fez o golo da vitória cufista. Foi a primeira desfeita do goleador de Sarilhos ao jovem avançado do FC Porto, que haveria de acabar esse campeonato em quinto lugar, atrás de Benfica, V. Setúbal, Sporting e CUF. A nova temporada trouxe para o FC Porto Fernando Riera, mas isso não significou que Júlio jogasse muito mais: estreou-se nas provas da UEFA, alinhando os derradeiros 19 minutos da derrota caseira frente ao Dynamo Dresden, em Novembro de 1972; e foi titular pela primeira vez na vitória em casa frente ao V. Setúbal, a 21 de Janeiro de 1973, mas a época fechou sem o seu primeiro golo. Esse haveria de surgir apenas a 24 de Fevereiro de 1974, já com Bela Guttman, outro ex-campeão europeu pelo Benfica, aos comandos. Foi após passe do recém-chegado Cubillas e valeu uma vitória sofrida (2-1) em Aveiro, ante o Beira Mar.
No FC Porto, porém, Júlio nunca foi feliz, pois a sua utilização era demasiado intermitente. A sua melhor época foi a de 1975/76, quando Branko Stankovic apostou nele como titular e Júlio respondeu com golos, nomeadamente três na carreira da equipa na Taça UEFA. Mas o jugoslavo saiu em finais de Janeiro e o avançado portuense voltou à condição de suplente. Foi nessa condição, porém, que assinou a primeira grande proeza da sua carreira. A 30 de Maio, na Luz, o Benfica tinha estado a ganhar por 2-0 ao FC Porto. Ademir reduziu para 2-1 pouco depois do início da segunda parte e, com o resultado assim, Monteiro da Costa chamou Júlio para o lugar de Oliveira. E o avançado foi fulcral: apenas cinco minutos depois, em lance individual, fez o empate e, a dois minutos do fim, a passe de Cubillas, assinou o golo da vitória portista. Como nesse mesmo dia o Sporting perdeu com o Boavista, no Bessa, a vitória valeu ao FC Porto a subida ao quarto lugar e a qualificação para a Taça UEFA, da qual ficaram de fora os leões pela última vez na história do clube.
Com a chegada de José Maria Pedroto ao Porto e sobretudo com a eclosão ao mais alto nível do grande goleador que viria a ser Fernando Gomes, Júlio desapareceu das opções. Em 1976/77 apareceu apenas uma vez no campeonato, substituindo Oliveira ao intervalo de um jogo frente ao Académico e marcando, ainda assim, um golo, que elevou a margem portista para os 2-0 finais. Nessa época, porém, conquistou o primeiro troféu da carreira, a Taça de Portugal, para a qual contribuiu com os dois últimos golos de uma vitória fácil (8-0) frente ao Alba, logo nos 1/32 de final. No final da época, contudo, teve mesmo de sair e ir à procura de competição noutro local. Acolheu-o o Varzim de António Teixeira e, como titular habitual, Júlio respondeu com golos: acabou a época com 12, um deles ao FC Porto, ainda que apenas para dar outros números a uma derrota por 5-1 ante a equipa que haveria de se sagrar campeã nacional. E três nas duas vitórias que os varzinistas obtiveram ante o Boavista, o que, somado à boa época da equipa poveira (10º lugar no campeonato e meias-finais da Taça de Portugal, com um golo de Júlio ao Sporting no dia da eliminação) lhe valeu a transferência.
No Boavista, a primeira época valeu-lhe um retrocesso no total de golos – apenas oito – mas uma grande careira na Taça de Portugal: marcou seis vezes na caminhada do Boavista de Jimmy Hagan até à conquista do troféu, incluindo uma na final com o Sporting (1-1) e mais uma na finalíssima, que os axadrezados venceram por 1-0. Em mais dois anos de Boavista, tanto com Mário Lino (no primeiro) como com António Teixeira e Henrique Calisto (no segundo), Júlio foi titular absoluto, chegando à tal convocatória para a seleção. Ao todo, assinou mais 23 golos no campeonato, aos quais somou o primeiro hat-trick da carreira (três golos nos 8-0 ao Sliema, de Malta, na Taça das Taças). Em 1980/81 marcou mesmo aos três grandes, o que lhe terá valido o regresso às Antas, para a equipa que o austríaco Hermann Stessl ia tentar fazer regressar aos títulos. Só que Júlio voltou a não ser feliz: ainda acabou a primeira época como titular – voltando a marcar ao Sporting no processo – mas a segunda, já com Pedroto e Gomes de volta, foi quase de um mero espectador.
Impunha-se nova saída e foi Stessl quem se lembrou dele e o levou para Guimarães. Mas, aos 30 anos, este já não era o Júlio de outros tempos. Em Guimarães fez apenas três golos em todas as competições, dois deles no campeonato e ao Portimonense, que o contratou para a época seguinte. No Algarve, com Manuel José a treinador, jogou ainda menos, embora tenha feito mais um golo ao FC Porto, num jogo disputado na Póvoa de Varzim, por interdição das Antas. E o final de carreira acabou por fazê-lo no terceiro clube do Porto, o Salgueiros, com Humberto Coelho como treinador. Ainda fez um golo, o último, a 19 de Janeiro de 1985, ante o Marítimo, a valer uma vitória sofrida, por 1-0. No fim, em 15 anos de I Divisão, ficou a dois jogos dos 200 e marcou 57 golos. Falhou foi a internacionalização. Por uns óculos.
JÚLIO NA I DIVISÃO
1971/72 FC Porto 3/0
1972/73 FC Porto 10/0
1973/74 FC Porto 6/1
1974/75 FC Porto 5/1
1975/76 FC Porto 16/4
1976/77 FC Porto 1/1
1977/78 Varzim 24/12
1978/79 Boavista 24/8
1979/80 Boavista 26/10
1980/81 Boavista 30/13
1981/82 FC Porto 11/2
1982/83 FC Porto 4/0
1983/84 V. Guimarães 16/2
1984/85 Portimonense 7/2
1985/86 Salgueiros 15/1
TOTAL: 198 jogos e 57 golos
Deixe o seu comentário: