CC Magazine: (7) - Chico Gordo
 

(7) - Chico Gordo






Num tempo em que o “Chico Fininho” de Rui Veloso animava os portugueses, um avançado chamado Chico Gordo admirava-os com o seu futebol subtil, feito de golos acrobáticos que ficavam na retina de quem começava a ver futebol na televisão. Nunca chegou a ser o melhor marcador do campeonato, porque a ocasião de brilhar com a camisola de um grande desbaratou-a ainda muito jovem, num FC Porto em desagregação. Mas passou a barreira dos 20 golos numa época de I Divisão e entusiasmava-se sempre que jogava a Taça de Portugal – prova que esteve várias vezes à beira de vencer. A falta de um troféu coletivo terá mesmo sido a maior mágoa de Bernardo Francisco da Silva, o Chico Gordo que fez as alegrias, sobretudo, dos adeptos do Sp. Braga.

Nascido em Benguela, Angola, a 2 de Outubro de 1949, Chico Gordo chegou a Portugal ainda muito jovem, para jogar no FC Porto. José Maria Pedroto, à altura o treinador dos azuis e brancos, deu-lhe uma oportunidade logo à segunda jornada, em Setúbal, a 15 de Setembro de 1968. O FC Porto perdia por 2-0 e, ao intervalo, Chico Gordo entrou para o lugar de Rolando. Não deu a volta ao jogo, que os portistas perderam na mesma, por 3-1, mas ficou com o lugar e foi titular logo no desafio seguinte, o empate com os galeses do Cardiff, a contar para a Taça das Taças. O primeiro golo chegou a 6 de Outubro, quatro dias depois de ter feito 19 anos, ajudando numa vitória (2-0) sobre o Varzim. Foi, no entanto, o único desta primeira época, que terminou com a desavença entre Pedroto e os dirigentes portistas por causa de um estágio e o afastamento do Zé do Boné.

A segunda época de Chico Gordo no FC Porto ficou na história, mas pelas piores razões. Em 1969/70, o clube teve três treinadores (Elek Schwartz, Vieirinha e Tommy Docherty) e acabou o campeonato no nono lugar. O angolano foi fazendo pela vida, sem grande destaque, e após um terceiro ano quase sem qualquer utilização (apenas três partidas como suplente utilizado) acabou mesmo dispensado para o Tirsense. Foi na equipa de António Medeiros que teve, por fim, alguma continuidade. Marcou um total de oito golos, três dos quais em duas derrotas muito animadas (3-5 e 2-3) com o Sporting, mas não conseguiu evitar a despromoção. O que se seguiu, para ele, foi uma viagem aos pelados do Portugal profundo, com as camisolas do Tirsense e do Lusitânia de Lourosa. Fez, no entanto, o suficiente para chamar a atenção dos responsáveis do Sp. Braga, que em 1975 regressava à I Divisão e o trouxe na viagem.

Chico Gordo começava então uma fase da vida que lhe valeria a menção honrosa como melhor marcador da história do clube bracarense na I Divisão, com um total de 60 golos. Assumiu-se logo como titular na equipa de José Carlos, em 1975/76, marcando 13 vezes nessa primeira época. Entre os seus melhores dias esteve o do primeiro hat-trick (ao U. Tomar) e um bis na vitória sobre o Sporting (2-1) no Minho. A sua marca goleadora baixou em 1976/77, para apenas sete golos, mas essa é a época em que marca no empate que o Sp. Braga arrancou na Luz (2-2) e obtém seis golos na Taça de Portugal, incluindo um hat-trick nos 4-1 ao Gil Vicente, nas meias-finais. Assegurada a presença na final, contudo, o Sp. Braga não chegou a levantar o troféu, caindo aos pés do FC Porto, por 1-0.

Esta foi, no entanto, apenas a primeira etapa da vida de Chico Gordo como goleador da Taça. Em 1977/78 marcou nove golos na competição, a somar aos 21 que fez no campeonato, mas ficou-se pelas meias-finais, batido mais uma vez pelo FC Porto. Em 1978/79 marcou na vitória sobre os portistas no campeonato e nos 2-1 que eliminaram o Benfica na Taça (prova na qual fez mais seis golos e voltou a ser eliminado nas meias-finais, desta vez pelo Boavista), mas a sua melhor noite aconteceu contra o Hibernians, na Taça UEFA: assinou um póquer na vitória bracarense por 5-0. O percurso de Chico Gordo em Braga estava, porém, próximo do fim: uma lesão contra o Belenenses, em Março de 1980, roubou-lhe o final dessa época e abriu-lhe a porta de saída, para o V. Setúbal.

Aos 31 anos, Chico Gordo deixava pela primeira vez o Norte de Portugal, mas a verdade é que a arte de ponta-de-lança começava a abandoná-lo. Em Setúbal até marcou na estreia, contra o Amora e cometeu a proeza de marcar seis golos num só jogo (os 9-0 ao Paredes, na Taça de Portugal, onde voltou a cair nas meias-finais e contra o mesmo FC Porto de sempre), mas percebia-se que estava a caminhar para o final de carreira, que seria no Beira Mar, outra vez na II Divisão. Desta vez, já não houve quem o trouxesse de volta.

 
CHICO GORDO NA I DIVISÃO
 
1968/69 FC Porto 12/1
1969/70 FC Porto 15/2
1970/71 FC Porto 3/0
1971/72 Tirsense 28/8
1975/76 Sp. Braga 26/13
1976/77 Sp. Braga 23/7
1977/78 Sp. Braga 29/21
1978/79 Sp. Braga 24/10
1979/80 Sp. Braga 23/9
1980/81 V. Setúbal 28/7
1981/82 V. Setúbal 17/6

TOTAL: 228 jogos e 84 golos




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