Numa altura em que a segunda versão da novela
“Gabriela” chega ao fim em Portugal, vale a pena recordar um jogador que
fez furor no país no final dos anos 70 mais pelo nome de guerra que
pelas suas qualidades futebolísticas.
Edmundo Paulino Sena, conhecido nos relvados como Mundinho, nada tinha
em comum com José Wilker, o ator que deu corpo à personagem do Dr.
Mundinho Falcão na novela que parara o país, mas ficou na memória de
todos os que viveram aqueles tempos devido à coincidência no nome. Nas
quatro linhas, ainda fez uma grande época no V. Guimarães, em 1979/80,
mas isso não teria sido o suficiente para lhe garantir um lugar na
história do futebol nacional não tivesse ele a ajuda de Jorge Amado.
Mundinho Sena nasceu a 9 de Setembro de 1952 e era baiano, como
Mundinho Falcão. No Brasil andou por vários clubes mas só se estreou na
verdadeira confusão que era o campeonato brasileiro em 1977, com a
camisola do modesto Treze, de Campina Grande (Paraíba). O técnico
Raimundinho deu-lhe a oportunidade de iniciar a partida com o Sport
Recife, a 19 de Outubro, e ele fez logo um dos golos no empate (2-2)
final. Foi o único em cinco partidas nesse campeonato, porém. Ainda
assim, foi repescado para integrar o plantel do mais poderoso Santa
Cruz, do Recife, na prova de 1978. Sob as ordens de Evaristo Macedo,
alinhou em três partidas (marcando um golo), sempre como suplente
utilizado, antes de rumar a Portugal, no Verão de 1978. Chegou meses
depois de a RTP ter acabado de exibir a telenovela “Gabriela”, o que
motivou vários trocadilhos e a simpatia geral dos portugueses – Mundinho
Falcão era o bom da fita, o modernizador de Ilhéus, o homem que acaba
com a tirania dos coronéis.
A integração de Mundinho no plantel
dirigido por Mário Wilson foi lenta. Só se estreou à quarta jornada da
Liga, a 17 de Setembro, entrando para o lugar de Vicente a nove minutos
do final de um V. Guimarães-V. Setúbal que já estava ganho: havia 4-0
para os minhotos. Mesmo assim, Mundinho ainda fez a assistência para o
quinto golo, marcado pelo seu compatriota Mané. Foi titular pela
primeira vez num empate em casa (0-0) com o Barreirense, mas Wilson
manteve a confiança nele para o jogo seguinte, nas Antas, onde fez um
golo ao FC Porto, colocando a equipa vimaranense em vantagem à hora de
jogo. Os portistas ainda empataram, mas ficava a suspeita de qualidade:
esta foi, no entanto, a única vez que marcou a um dos grandes. Na
primeira época fez quatro golos no campeonato, ajudando ao sexto lugar
final, e três na Taça de Portugal. Entre as duas provas bisou por duas
vezes: frente ao Boavista e ao Aljustrelense.
A grande temporada de
Mundinho, no entanto, foi a segunda. Mário Imbelloni apostou nele com
regularidade e o baiano fechou a Liga com 16 golos, aos quais juntou
mais três na Taça de Portugal. Pelo caminho ficou uma série de quatro
jogos seguidos a marcar (incluindo um hat-trick numa vitória por 5-4 em
Portimão) e, mais tarde, dois bis seguidos (frente ao Estoril e ao
Belenenses). O Vitória, contudo, voltou a não passar do sexto lugar
final na tabela, o que levou à queda do treinador argentino e à chegada,
primeiro de Fernando Peres, para iniciar a época seguinte, e depois de
José Maria Pedroto, na altura ao lado de Pinto da Costa e em rota de
colisão com a direção do FC Porto. Mundinho foi perdendo influência na
equipa, terminou a época com apenas cinco golos (mais um na Taça de
Portugal, na escandalosa eliminação do Vitória aos pés do Sacavenense,
em Janeiro), e acabou por deixar o clube.
Acolheu-o o Sp. Braga de
Quinito e o brasileiro até começou por ser titular. Foi, no entanto,
desaparecendo das escolhas à medida que a época avançava. O último dos
quatro golos que fez nesse campeonato surgiu a 28 de Fevereiro de 1982,
numa goleada (5-0) ao Académico de Viseu. Depois disso, só foi titular
mais duas vezes e nem esteve na final da Taça de Portugal – a tal à qual
Quinito compareceu de smoking – para cujo apuramento contribuíra com
dois golos em fases anteriores. Terminada a época, assinou pelo
Desportivo de Chaves, que já estava a tentar subir da II Divisão para a
elite do futebol nacional. Mas aquela era a última etapa na trajetória
de Mundinho Sena no futebol de topo português.
MUNDINHO NA I DIVISÃO:
1978/79 V. Guimarães 19/4
1979/80 V. Guimarães 27/16
1980/81 V. Guimarães 21/5
1981/82 Sp. Braga 19/4
TOTAL: 86 jogos e 29 golos
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